Nuno Espinal

A profissão do pai (juiz) fez com que tivesse nascido na cidade da Horta (Açores) e passasse a infância a residir em locais diferenciados, tais como Ponta Delgada, Faro, Guarda e Coimbra. Chegou ainda, neste período, a frequentar, durante dois anos, a escola primária de Vila Cova do Alva, tendo vivido em casa dos avós maternos. As memórias que o ligam a todas as localidades em que viveu contribuíram para a nostalgia que tanto expressa nos poemas que escreve.
A sua ligação às “coisas da cultura” teve principal realização quando foi coordenador da Área de Actividades Culturais do GCD do Banco Espírito Santo. Nesse âmbito, foi um dos fundadores da revista “Espaço Aberto”, da qual veio a ser Director e em que se destacou pelas muitas entrevistas que fez a inúmeras personalidades da cultura e do desporto em Portugal com realce para as de Amália Rodrigues e Zeca Afonso.
Reformado bancário, foi, ainda, dirigente do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas. 
É o actual Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Vila Cova do Alva.

A Velha Estrada de Outrora
(Vila Cova do Alva)

A negrura que irmana o alcatrão
Transmuda-se na recordação súbita e redentora.

Renasce a Velha Estrada de Outrora.

Fluem pedaços e momentos de Outrora,
Correm berlindes e pés descalços
Na gravilha solta que se solta,
Da Velha Estrada de Outrora.

Um pachorrento cão, fiel aos tempos,
Repousa no leito térreo e pedregoso
Da Velha Estrada de Outrora

Mulheres, cesta à cabeça,
Passam, a espevitar sabores.
“É meio dia” - dizem os relógios das torres.
E dizem as mulheres:”é o jantar pró meu homem”.
E diz um ancião: “Levam na cesta o vigor das enxadas,
Que cavam mínguas para quem as trabalha.”

Ouve-se um ribombar de motor…

O Ancião assiste, no chafariz,
(Beirado à Velha Estrada),
Ao corrupio de cântaros sedentos
E ouve estórias que se contam a saciar mexericos.

Alteia o ribombar…

Um carro de bois a chiar molenguice.

Mais e mais ribombar…

“Cuidado, já se acerca….” ouve-se de alguém…

Apartam-se as mulheres ladeando a estrada.
Um berlinde cumpre ainda uma cova,
Rosna, contrariado, o cão, que se esgueira para a berma, onde se enrosca.

Passa, finalmente, sua alteza: é o automóvel!
Impõe soberania e arrasta um manto de poeirada, que enevoa céu e sol.

O Tempo desliza na Velha Estrada,
E desliza a Velha Estrada no Tempo.

Chega a noite.

Nas tabernas, ânimos esquentados em delirantes copos de três.

Efeérriá, urra, urra, urra.
É a estudantada a percorrer a Velha Estrada.

Era assim Outrora…

Candeeiros amarelentam vidraças que tremelicam.
Urra, urra, urra…Gritam,
E cantam: esta noite sonhei eu, ai solidão, solidão…

Risadas, penumbras e ais de amores…

A lua vai azulando a madornice da noite.

Desliza deslizando o Tempo na Velha Estrada
E já o Sol preguicento belisca a madrugada….

É dia de festa, troam foguetes: a alvorada.

A Velha Estrada enfeita-se de bandeiras e colchas que se suspendem.
Estende-se majestosa a procissão.

A Banda Filarmónica entoa, garbosa, um vibrante passe doble,
Na Velha Estrada de Outrora…

Na negrura que irmana o alcatrão,
A Banda Filarmónica entoa, garbosa, um vibrante passe doble.

 

Taça à Vida

Havia em Vila D’Alva duas mimosas floridas.
Gigantes, frondosas, cheias de encanto...
Foram-me tão íntimas essas Mimosas,
Em diálogos... em confissões amorosas...
Que para sempre ficaram retidas
Em eterna memória, em sagrado canto.

E como as recordo...
Erguiam ao céu longas ramadas,
Entrelaçadas, como de mãos dadas.

Era, então, um jovem:
Ideologia, ilusões,
Encantamento, paixões...

Mas, o tempo, implacável,
Tece, em anos somados,
Diluídas as ilusões...

E tanta a esperança perdida
E tantos os sonhos falhados
Em tantas coisas da vida!

E que fazer?... Se até no lugar
Onde as mimosas floriam,
Outrora,
Apenas a ausência, um lugar vazio...
Agora.

(Ah, cuidado! Que eles o não saibam!
Ainda, lá em baixo, passam puras as águas do Velho Rio...)

Mas, das Mimosas tantas saudades...
De seus sonhos e fantasias, de seus perfumes e amores...

Mas ergo uma Taça à Vida! E sabes?...
Nos teus olhos vejo as Mimosas cheias de amarelas flores.