Entrevista com Henrique Gabriel

Henrique Gabriel nasce a 12 de Maio de 1960, em Vila Cova de Alva no Concelho de Arganil. Frequentou o Curso das Artes Plásticas da ARCA em Coimbra e, em 1978, inicia a actividade profissional em Artes Gráficas. Expõe pela primeira vez na Colectiva do MAC - Movimento de Artistas de Coimbra e frequenta o Curso de Design Gráfico na ARCO em Lisboa. Opta por se dedicar a esta actividade ao longo dos 20 anos seguintes. No início do novo milénio, uma caminhada percorrendo o Caminho de Santiago desperta-lhe anti gas paixões: A pintura e a cerâmica a que se dedica desde então.

I.V. — Ainda te lembras dos teus sonhos de menino?
H.G. — Sonhei sempre ser pintor. A minha primeira forma de expressão foi
precisamente através do desenho. Os meus pais tinham uma pequena mercearia
na aldeia e havia sempre um lápis preso à balança por um cordãozinho em cima
das resmas de papel de embrulhar os produtos e o meu entretém, era subir a um
banco para ficar à altura do balcão e desenhar.
O meu sonho era efectivamente o desenho e a pintura.

I.V. — Como é que dás asas a esse sonho?
H.G. — Fiz o Liceu e a determinada altura, pus completamente de parte a
pintura. Acabei por enveredar pelo design. Comecei com 18 anos a trabalhar
numa gráfica em Coimbra que funcionou como uma escola espectacular
porque aprendi como as coisas são feitas, como se faz um livro, uma revista,
uma embalagem, o que me veio depois a servir quando vim para
Lisboa. Comecei a trabalhar como maquetista de revistas, nomeadamente
na revista “Casa e Decoração” e em Agências de Publicidade. Estamos a falar
no princípio dos anos 80. Não havia, como há hoje, tanta gente especializada
porque não existiam cursos. Estavam a começar. Enveredei pela aprendizagem pessoal e,
embora novo na pintura, ainda bem que não frequentei nenhum desses cursos porque aquilo
que faço são técnicas desenvolvidas por mim. Não sigo qualquer tipo de escola.
E gosto disso, dá mais liberdade.

I.V — E durante quanto tempo exerceste essa actividade?
H.G. — Acabei por estar ligado às Agências de Publicidade muitos anos até que
cheguei a ter a minha. Dos 18 até aos 40 anos trabalhei sempre em publicidade.

I.V. — Mas acabaste por decidir regressar ao teu sonho de infância. Queres
explicar o que te levou a fazê-lo?
H.G. — Há coisas que, desde muito miúdo, sempre me interessaram muito na
vida. São aquelas interrogações que todos nós fazemos sobre as religiões, sobre
a espiritualidade e, em 1997, ainda não havia esta forma tão efusiva de vivênciar
as coisas alternativas à igreja , resolvi fazer o Caminho de Santiago.
Aí aconteceram muitas coisas: uma delas foi conhecer um Galego, Santiago Navarro,
com quem caminhei alguns dias e, num deles, estava ele a dormir no albergue, peguei
num papel e fiz-lhe o retrato. Ele ficou muito contente, mostrou-o a toda a gente.
Quando cheguei a Lisboa fui comprar uma tela e tintas, pintei o retrato dele e quando
o fui visitar à Corunha ofereci-lhe o quadro. A partir daí, nunca mais parei.
Deixei definitivamente a publicidade porque o que eu queria, nesta segunda fase da vida,
era cumprir o meu sonho de menino - a pintura.
Estou a pintar há seis anos e não estou arrepe n d i d o.

I.V. — O que é o Caminho de Santiago?
H.G. — Fisicamente, o Caminho de Santiago é o caminho seguido pelos
peregrinos que, de toda a Europa, rumam a Santiago de Compostela e que
foi, sem dúvida alguma, a primeira forma de União Europeia.
Foi aí que se encontraram todos os povos, as várias culturas, se começaram a fazer as
primeiras trocas culturais e comerciais. Conhece um desenvolvimento muito
grande durante a Idade Média mas é um caminho que já existia antes do
Cristianismo. Hoje há elementos que apontam para ter sido feito talvez até no Neolítico.
Perde-se na memória dos tempos. Era percorrido até Finisterra, até à beira mar,
até ao fim da terra onde o sol morre para nascer renovado no dia seguinte

I.V. — Será que quem percorre esse caminho vai em busca de si próprio?
H.G. — Sem dúvida alguma.

I.V. — Mas é uma viagem que tem a ver com a fé e com a descoberta da
essência do indivíduo, não é?
H.G. — No Caminho encontram-se pessoas que o fazem pelas mais diversas
razões: desde essa busca espiritual, uma busca de si mesmo, até razões mais
católicas, mais religiosas, no sentido a que estamos mais habituados, embora
para mim estas coisas tenham sempre um carácter religioso, tendo a
intenção de, no sentido profundo da palavra, re-ligar o homem a qualquer
coisa maior, que nós adivinhamos e que sentimos que existe. Quase como
um regresso à casa de onde viemos.

I.V. — O que te levou a percorrer esse Caminho?
H.G. — Uma busca pessoal. Uma busca do sentido da vida.

I.V. — Então acabou por ser nesse Caminho que descobriste o teu próprio
caminho. Vieste ao mundo para pintar...
H.G. — Que era uma coisa que eu sempre pressentira. No fundo, acho que todos nós
sabemos porque é que aqui andamos, a questão está em termos disposição
para cortar amarras e enveredar nessa aventura da descoberta das nossas
potencialidades. O Caminho ligou-me esse interruptor.

I.V. — Na tua pintura sobressai muito uma grande espiritualidade. Onde é
que vais buscar tudo isso?
H.G. — A pintura acontece. Nunca faço esboços daquilo que vou pintar.
Ponho a tela no cavalete. Agarro nos materiais e as coisas começam a acontecer.
Não tenho nunca um plano do quadro que vou fazer.

I.V. — És tu quem domina a obra, ou é ela que te domina a ti?
H.G. — Fico sempre ansioso para saber no que a obra vai resultar. Chego ao
fim e surpreendo-me. O meu grande prazer em pintar reside nisso mesmo, ser
constantemente surpreendido - quando parto para a tela em branco ela permite tudo,
as coisas começam a acontecer e aparecem as cores e as formas.

I.V. — O que é um Pintor?
H.G. — De alguma maneira é um ser privilegiado, na medida em que tem
um meio de comunicar, de transmitir e ser uma mais valia. O pintor, é
como o poeta, como dizia Agostinho da Silva -  e poeta somos todos nós.
Só que uns conseguem expressar-se, outros ainda não descobriram como
o fazer. O pintor tem essas ferramentas. É acessível, não dá trabalho a ler.
Todos olham, sintam ou não. A Pintura é uma linguagem acessível porque
perante um quadro cada um vê e sente de forma única, conforme os seus
códigos próprios que resultam das suas experiências da vida.

I.V. — Ao mesmo tempo que permite várias leituras!
H.G. — Então isso é óptimo, é sinal de que a obra está viva.

I.V. — De que modo o facto de seres Pintor influencia a forma como enxergas o que te rodeia?
H.G. — Não sei se é uma causa ou se é uma consequência, portanto não sei se a
minha pintura é a causa de eu ver o mundo de certa maneira, ou se é consequência disso.
Sou por formação, muito tranquilo. Há dias, duas Testemunhas de Jeová bateram-me à
porta e fizeram-me a seguinte pergunta: — Não acha que hoje as pessoas estão muito afastadas,
estão isoladas,comunicam pouco? — E eu respondi que não. Não comungo da visão pessimista
da humanidade, estamos a caminhar. Hoje mais do que nunca, temos telemóveis, internet,
temos à nossa disposição tudo para comunicar e estar com os outros e eu dou muito valor a isso, a
estar com os amigos. Os amigos são a família que criamos por vontade própria.
Cada vez mais eu vejo os outros como uma parte integrante de mim mesmo.
Costumo dizer que vejo isto como um polvo e cada habitante deste planeta como sendo um tentáculo,
portanto, enquanto houver uma criancinha a passar fome em África, todo o polvo vai sofrer com isso.
Quando eu consigo, de alguma forma, ser mais feliz, isso também se transmite.
Creio que a única obrigação que temos hoje e a única coisa que considero um
pecado é a nossa incapacidade de sermos felizes. Estamos numa constante corrida pelo que não temos,
dando pouco valor àquilo que somos, criamos vazios constantes.

I.V. — O acto de criar é doloroso para ti?
H.G. — Nunca. Não entro em ansiedade. Eu acho que a obra não é minha.
Somos meros veículos do acto criativo. As coisas andam no ar, há umas antenas que vêm com o hardware
para pintura, outros para a escrita. Eu pinto os quadros e depois para os assinar é um pesadelo.
Isso talvez tenha um bocadinho a ver, a nível subconsciente, com o saber que a obra não é nossa e é quase abusivo assiná-la.

I.V. — Quando vendes um quadro sentes alguma tristeza, por ver aquele filho partir?
H.G. — É um prazer absoluto. Cada quadro é uma mensagem - se eu os tiver todos em casa, ela não chega a ninguém.
Porque de facto a pessoa que o compra, gosta dele, sentiu alguma coisa (nos dias que correm é preciso ter poder de compra,
por isso é preciso gostar para comprar) depois vai exibi-lo em sua casa, passa a fazer parte da intimidade daquela familia,
vai comunicar com pessoas que nunca vi e a mensagem permanece.

I.V. — Quando é que sentes que o quadro está pronto?
H.G. — Quando ele fala comigo. Normalmente é ele que tem que falar comigo, que me diz que está pronto.

I.V. — O que é a vida para ti?
H.G. — É uma escola em que estamos numa constante aprendizagem, num
constante desenvolvimento e a vida só me faz sentido sendo uma escola.

I.V. — Quando ela te puxa o tapete, onde te agarras?
H.G. — Não agarro. Com a tranquilidade possível espero para ver o que é
que acontece. É certamente uma mensagem para mim. Há qualquer coisa que
eu não estou a perceber. Acho que a vida não me prega partidas, eu é que
muitas vezes não entendo a vida, o que são coisas completamente diferentes.
Eu não tenho muito a tendência de remar contra as marés, prefiro
boiar e ver onde as coisas me levam porque acredito que há um sentido para
tudo. Por isso o que faço é parar e tentar perceber onde é que me estou
a desviar do lógico e do sentido coerente das coisas e analisar os acontecimentos
por outras perspectivas, é como fazer um puzzle, as peças não encaixam como
queremos mas, seguindo uma lógica que é a do todo, há que encontrar a posição certa.

I.V. — Acreditas que a felicidade é possível?
H.G. — Nós é que estamos sempre numa luta constante com a vida para fazermos preencher determinados padrões apreendidos que temos
organizados e isso não nos leva obrigatoriamente a um estado de felicidade. O que eu
acho é que a vida nos indica um estado de felicidade e um caminho de felicidade que nós estamos constantemente a contrariar.
Penso que é melhor apreciarmos mais as coisas que temos e dar graças por isso, do que passar a vida a desejar, criando um constante descontentamento.

I.V. — Se a vida tivesse uma cor, qual seria a dominante?
H.G. — A cor prata. A cor simbólica da Lua.

I.V. — E um som?
H.G. — O som do silêncio. Foi no silêncio que o  Verbo se manifestou...

I.V. — Que importância tem o amor na tua vida?
H.G. — O amor está impregnado em todas as coisas, nos nossos actos, nos nossos pensamentos
e é indissociável das nossas vidas, à nossa condição de seres humanos.
Penso que o nosso estado de felicidade depende do amor por nós mesmos acima de tudo.
Jesus deixou esse conhecimento: Amar os outros como a nós mesmos. Primeiro devemos conhecermo-nos, porque ninguém
ama o que não conhece, depois purificarmo-nos para nos gostarmos cada vez mais,
e, quando verdadeiramente amarmos a nós próprios, aí sim, temos
amor para dar. Ninguém dá o que não tem.

I.V. — O que te move? As causas, as convicções, as paixões, as emoções?
H.G. — Essas coisas todas, elas estão tão complementadas umas com as outras que aquilo que nos faz mexer são as paixões, o amor, a criatividade,
acreditar que o nosso papel é colaborar e embelezar ainda mais isto. É
acreditar que aquilo que foi criado não está no seu estado de perfeição mas
está no caminho da perfeição e nós podemos dar uma ajuda nesse processo. Portanto, tem a ver com isso, com as causas, as paixões, as ideologias,
tudo o que cria essa dinâmica

I.V. — E o sonho, tem algum peso na tua vida?
H.G. — Completamente. Sou um sonhador, um utópico e o sonho é estruturante da
minha obra.

I.V. — Qual é a tua maior paixão?
H.G. — A natureza e o enigma da existência para o qual acredito ela tem a resposrta.

I.V. — O que mais abominas?
H.G. — A mentira porque na mentira se alicerça tudo o que é impeditivo da
liberdade do indivíduo. A arma primeira que utilizam contra nós, no nosso
dia a dia, os grandes poderes, nomeadamente o político e o religioso, sempre com base na limitação e controlo do ser humano, é a mentira.

I.V. — Eu costumo dizer que a mentira nos faz perder de nós próprios. Concordas com isso?
H.G. — Sim. Altera os nossos valores, condiciona-nos, engana-nos e portanto cria-nos um mundo perfeitamente distanciado da nossa essência
que é a comunhão com o Todo em perfeita harmonia.

I.V. — O que esperas que a vida ainda te traga?
H.G. — Eu gosto das coisas assim. Acho que no tempo que andar aqui, pre-
tendo ocupá-lo essencialmente com o ser e com o meu desenvolvimento
enquanto indivíduo. O resto é sempre uma consequência. Não tenho aqueles objectivos do ter.
Recebo o justo pelo que dou em troca, contento-me com isso, o resto não depende das minhas ambições.
Acredito que existe em algum lugar a fortuna que necessito para viver neste mundo, mas o administrador não sou eu. Sou um péssimo gestor.

I.V. — O que é ser-se artista em Portugal?
H.G. — É essencialmente ser um aventureiro porque ser-se artista em
Portugal é uma aventura diária. O mercado é pequeno e isso tem consequências.
Faz parte... Não se nasce em Portugal por acaso, faz parte.

I.V. — Não concordas que passa pela vontade política?
H.G. — O grande erro dos nossos políticos é não perceberem minimamente
o que é ser-se português, uma coisa que me escandaliza profundamente.
Eles não sabem! Não se trata de vontade.
Foram criados na "cultura" da cidade. Vivem por aqui e não fazem ideia do que é Ser Português.
Acho até que o "povo" é uma chatice para quem governa.
Nós fomos feitos para fazer coisas criativas, não as pequeninas coisas chatas e rotineiras.
Somos inventores, curiosos, imaginativos e inconstantes e estas caracteristicas não são defeitos
são qualidades e uma mais-valia que não encontramos no resto dos povos europeus.
A rotina castra tudo isso, faz-nos definhar e viver em profunda tristeza.
Importamos modelos atrás de modelos para tudo, para se chegar á conclusão que não resultam connosco e
assim vamos caminhando perdidos num labirinto.

I.V. — Como é que tens vindo a encarar o facto de estares a ir para mais
velho?
H.G. — Optimamente. Vou adorar quando tiver 80 anos e os cabelos bran-
cos. Eu acho que não ficamos "velhos". É uma ideia preconcebida que nos é
metida na cabeça pelo nosso ensino e pela nossa sociedade. Os galegos têm
uma expressão muito engraçada, chamam aos mais velhos, "Maiores".
A velhice, para mim, é conhecimento e para alguns sabedoria. Há coisas que um indivíduo aos 20
ou aos 30 anos não pode entender porque que só são perceptíveis aos 70, 80,
portanto a velhice para mim uma visão alargada da Vida.
No cimo da montanha a paisagem é mais deslumbrante.

I.V. — Então poderei deduzir que também não te incomodam as rugas?
H.G. — Isso de tirar as rugas é anti humano. É apagarmos a nossa história.
Uma pessoa sem rugas é uma pessoa vazia que não tem nada para contar e
uma pessoa que não tem nada para contar é porque não viveu nada, está
morta e realmente estamos numa sociedade mais de mortos vivos que outra
coisa qualquer.

I.V. — Que tipo de sentimento tens em relação à morte?
H.G. — Curiosidade.

I.V. — Acreditas que a vida acaba aqui?
H.G. — Não! Não! Não me faz sentido. Se acabar aqui o assunto está resolvido
portanto não tenho nenhuma razão para que isso me tire o sono. Se não acabar
- e eu acredito, pelo menos ponho isso como hipótese - só me pode suscitar alguma curiosidade.

I.V. — Tens algum lema de vida?
H.G. —No Caminho um peregrino de quem nem sei o nome,
olhou-me nos olhos e disse-me: "Não tenhas medo!"
Hoje acho que é a base de tudo.
É a base para um caminho realmente de tranquilidade, de serenidade e alguma felicidade porque
uma das coisas que nos fazem logo em pequeninos, é incutir-nos todos os medos do mundo.
É o medo da morte, do desemprego, de chumbar, do não-sucesso, da doença, é o medo de tudo e mais
alguma coisa. É uma mochila tão carregada que todos nós transportamos
com os medos que realmente o meu lema é mesmo  “Não ter medo”.

I.V. — Se te pedissem para escrever o teu epitáfio, que palavras escolherias?
H.G. — "Agora sei o que não sabia."

I.V. — Que mensagem gostarias de deixar nesta entrevista?
H.G. — Que vale a pena ser português apesar de nos quererem fazer crer o contrário.
Que os artistas, e há um artista em cada português, mais do que os políticos, mais do que quaisquer outros, são preponderantes
na construção do legado que as actuais gerações vão deixar como herança.
Este país, eu acredito, vai ser aquilo que individualmente tivermos vontade de criar.
Este país foi criado para um projecto maior e todos somos pedras fundamentais na estrutura desse Novo Mundo.
Há que nos reencontramos.
Recomecemos por cada um, pela nossa casa, pelo nosso bairro, pelas relações com o vizinho do lado.